Liderança

A. H. Fuerstenthal
Cientista político e consultor de empresas

A questão da liderança é um problema que acompanha a humanidade desde os seus primórdios. Sem liderança, há o perigo da estagnação, da mesmice e da decadência. Com liderança, existem as ameaças das ambições hiper-dimensionadas, dos objetivos autodestrutivos e dos riscos descontrolados.

Desde que a humanidade civilizada adotou os princípios e as práticas da democracia, a sombra dos usurpadores e dos ditadores foi dissolvida. Mesmo assim, os próprios líderes eleitos trazem consigo uma problemática inquietante e às vezes catastrófica.

Em primeiro lugar: o que é liderança?

É fazer outros endossar idéias ou atitudes que, por iniciativa própria, não adotariam. Então, liderança é uma "venda" de idéias e de iniciativas. Em geral, essa "venda" acontece se o líder consegue convencer sua platéia dos benefícios implícitos nas suas propostas.

Os líderes genuínos distinguem-se dos demagógicos por não deixarem de mencionar o custo dos benefícios projetados.

Dentro dessa mentalidade democrática, existem dois estilos de liderança. Um pode ser chamado de europeu; o outro, de americano. O típico líder europeu tem suas idéias concebidas e procura passá-las para o maior número possível de contemporâneos; o americano busca destilar a opinião da maioria e levar o produto ao resto da comunidade.

O estilo europeu tem dois pontos fracos: em primeiro lugar, o líder precisa ser pessoa de segurança e de autoconfiança extraordinárias. Em segundo lugar, os seus seguidores devem ter nível alto de conhecimento e discernimento. Não adianta a maior sabedoria e pureza do líder enquanto não houver sensibilidade do seu público. Nota-se neste lugar o grande dilema da democracia: ela só funciona se o "demos" (povo) tem qualidade.

O estilo americano de liderança é ainda mais sensível. Afinal, o líder que se contenta em identificar e representar a opinião majoritária deve ser uma pessoa um tanto despersonalizada. Porque, neste processo, onde fica sua opinião pessoal? Talvez a sua virtude seja até a ausência de opinião própria. Todo valor deste tipo de liderança depende do valor da opinião majoritária. Pressupor que este valor seja sempre alto é mera ilusão, não justificada por qualquer experiência histórica.

Mas não é só isto. O líder dentro do estilo americano está condenado a uma condição psicológica difícil de suportar. Fazer-se instrumento de opinião alheia, qualquer que seja o seu grau de popularidade, pode ser profundamente frustrante para uma pessoa essencialmente ambiciosa, que, assim, cairá facilmente na tentação de compensar-se materialmente pela realização moral perdida. Teremos, então, um líder popular, insignificante, mas de crescente fortuna pessoal.

A conclusão é que a humanidade democrática deve superar a idéia do líder salvador. O destino da nação democrática está por sua própria conta. O cidadão democrático não pode fazer seu trabalho e considerar a liderança como trabalho dos políticos. Ele mesmo tem que ser politizado, quer dizer, cada vez mais informado, penetrante na sua visão e objetivo nas suas conclusões. Se isto parece uma proposta utópica, deve ser pela grande distância que as democracias atuais mantém daquele ideal.