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Artigos sobre o terror nos EUA: O conteúdo explosivo de ideologias
A.H.Fuerstenthal
artigo publicado no site da Revista Viver Psicologia
Pode parecer absurdo, mas há um certo paralelismo
entre a queda do muro de Berlin e aquela das torres do World Trade Center.
A queda do muro acompanhou naturalmente o colapso do regime comunista,
enquanto a destruição das torres certamente sinalizou o
fim de uma fase capitalista, de uma fase que pode ser chamada de ingênua,
autoconfiante, segura. De agora em diante, qualquer grande iniciativa
do capitalismo, seja ela política, legislativa, fiscal ou construtiva,
terá que ser cercada de precauções e de estratégias
defensivas contra ameaças terroristas planejadas ou improvisadas.
O desmoronamento da União Soviética foi
um acontecimento político, mas atrás dele houve uma contradição
ideológica. Ideologicamente falando, o comunismo era uma doutrina
humanitária. A Humanidade liberada do jugo capitalista era suposta
de ser justa, equilibrada, feliz. O fato que esta Humanidade paradisíaca
tinha que ser imposta por uma das tiranias mais sangrentas de toda a História
era uma prova incontestável de que algo naquela ideologia era puramente
utópico, contrário à natureza humana. Psicologicamente
falando, a grande maioria dos seres humanos precisa ser motivada, para
esforços produtivos, através de ganhos materiais, proibidos
no regime comunista. Marx era um grande sociólogo, mas um péssimo
psicólogo.
Qual seria então o possível antagonismo
na ideologia capitalista que pudesse ser responsável pelos ataques
terroristas contra as altas fortalezas do liberalismo econômico?
Capitalismo é a livre aplicação de
valores na criação de produtos cuja comercialização
resulta na geração de valor adicional. É o aumento
do valor investido através da produtividade, mais especificamente
através da contratação de cérebros e mão-de-obra,
visando a criação de bens negociáveis.
O benefício derivado do arranjo capitalista é
tríplice: em primeiro lugar, o aumento do capital, com a perspectiva
de aplicações cada vez maiores; em segundo lugar, a criação
quase incessante de empregos em todas as faixas possíveis; em terceiro
lugar, o fornecimento de produtos para todas as necessidades e conveniências
humanas imagináveis em escala abundante e condições
economicamente viáveis. É um milagre organizacional, uma
espécie de perpetuum mobile econômico.
Infelizmente, este ideal econômico peca pela sua
própria perfeição. A racionalidade do capitalismo
puro é tão tentadora que ameaça a grande parte da
Humanidade que não é pragmática ou materialista.
Esta parte abrange religiosos, místicos,espirituais, contemplativos,
românticos, pouco dotados, não empregáveis, todos
aqueles que, por razões positivas ou negativas, estão isentos
de ambição materialista.
Quem não pensa em termos de conforto, de posse,
de progresso, de benefícios materiais, não pode deixar de
ver no capitalismo uma força diabólica que atrai a Humanidade
para seu lado pecaminoso.
É inegável que a iniciativa industrial,
instrumento essencial do capitalismo, criou o culto do supérfluo,
do prazeroso, do fácil, do padronizável e do descartável,
em detrimento de qualquer profundidade, seriedade e desenvolvimento individual.
Assim como os empreendimentos industriais e comerciais
dependem, na sua sobrevivência, de níveis adequados de venda,
todo o capitalismo depende de um consumo suficiente. O consumidor é
então a figura central da civilização capitalista.
Esta figura é uma marionete com opiniões padronizadas, necessidades
artificiais e reações massificadas. Suas verdades são
substituídas por chavões e sua intimidade por efeitos mercadológicos.
Quem opta por aquele esquema de vida, tem toda liberdade
de faze-lo. Mas os outros? O canto da sereia é ouvido, mas a mensagem
é rejeitada, seja em bases culturais, seja por motivos individuais.
A dicotomia do capitalismo está no seu caráter liberal (qualquer
um pode comprar qualquer coisa) e na sua pressão quase ditatorial
para transformar todos os seres humanos em materialistas. Nesta altura,
o capitalismo assume caráter e dimensões de um poder político
combatível apenas por outros poderes políticos. Atos de
terrorismo são apenas a expressão de tais poderes.
Para complicar a situação, reações
militares terão pouco efeito sobre as ameaças terroristas
contra a civilização capitalista. É uma condição
bélica onde se conhece o adversário apenas depois da sua
atuação. Para conhece-lo antes, serviria talvez a observação
psicológica. Ninguém vai me convencer que o terrorista não
revela seu extremismo e sua agressividade por atitudes cotidianas muito
antes de entrar na sua ação catastrófica.

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